De gabinete
Tenho gana por teorizar
sobre a mulher que não ofereceu
(a essa hora do dia)
o café da manhã aos seus filhos.
Pouco ouço seu choro,
não tenho seu desespero,
não sinto sua paralisia.
Mas aponto caminhos.
Por que não devo me sentir
um generoso homem de bem?
Tenho centenas de laudas,
dezenas de argumentos,
quatro ou cinco pontos de vista.
Sim… são meus
- não dela -
esses pontos de vista.
Aqui, atrás da escrivaninha,
de estômago cheio
e coração vazio,
tenho muito a dizer à mulher que chora
à falta do café com pão
dos seus filhos.