Uma nova chama na poesia cearense




Revista Verbo21, 2011*


Apesar da aspereza de nosso tempo, novos versejadores ainda se iniciam na difícil e necessária tarefa de encontrar um lugar na lírica contemporânea. Difícil diante do multifacetado cenário de produção da arte da palavra hodiernamente; porém, necessária, tendo em vista o pulsar natural da poesia que arrebata o ser humano desde sempre e o clamor constante da língua por reformulações que só os poetas trarão. Sempre as trouxeram e foi principalmente isso (ao lado de fatores sociais, econômicos e políticos) que determinou os rumos da história das línguas vernáculas.

Mas os estreantes deparam-se com problemas (ou soluções) próprios de nossa época: o poeta moderno já não se define por essa ou aquela corrente literária e, diante de toda a herança que se nos apresenta, os que não desejarem macaquear este ou aquele colega ou grupo, geralmente, têm apenas duas saídas: a primeira é a negação completa de toda a nossa história, a via do completamente novo; a segunda é a tentativa de reunião e conciliação de todas as contribuições do passado ou de, pelo menos, uma boa parte delas.

Os que se enquadram na primeiro grupo podem ser grandes gênios (os chamados inventores) ou então os iniciadores de manias, como teoriza Ezra Pound. E quantas veredas desembocam na triste ilusão das invencionices! São esses, não raro, os poetas que não leem poesia, com a infeliz desculpa de que não querem ser influenciados.

O segundo grupo é bem mais seguro para quem se aventura nos labirintos poéticos criados no século XX: anda-se por todos os lados até que se encontre o fio-de-lã-de-Ariadne. É assim que o cearense Wender Montenegro se descobre: apalpa as paredes enigmáticas da tradição e cuidadosamente perscruta o solo de sua linguagem própria com a cautela e a agilidade na medida dos que reconhecem a necessidade de avançar ao mesmo tempo em que evitam as armadilhas das modas literárias.

O seu ARESTAS (All Print Editora, 2008), caderno de estreia, é uma bem costurada mistura de influências. Isso já se imagina na leitura do poema de abertura, Bandeiras. A primeira estrofe questiona:


Que bandeira hastearei que valha a pena

a pena empunhar por defendê-la?


É de se esperar dos iniciantes que elejam suas influências, suas preferências. Montenegro surpreende, depois de traçar um breve e bem articulado histórico da literatura brasileira, por responder ao final: “A bandeira dos que não têm bandeira”. Convém acrescer: todas as bandeiras.

Para o também cearense Francisco Carvalho, que assina o prefácio, o que chama atenção particularmente nesse poema é a perplexidade resultante do modo como é encerrado, porque a “ambiguidade do verso final frusta de certo modo as expectativas do leitor, que esperava uma definição explícita do posicionamento ideológico do poeta”. Não sem motivo, Bandeiras também merece destaque do ponto de vista de outro conterrâneo, Sânzio de Azevedo, por citar “alguns nomes do passado, acompanhando os estilos de época, quando o mais comum hoje em dia é datar-se o início da literatura brasileira a partir da famosa Semana paulista...”. Além disso, com esse texto, o poeta recebeu o diploma de classificação na II Olimpíada Cultural – 500 anos da Língua Portuguesa no Brasil, organizada por Sérgio Grigolletto, em Barra Bonita-RJ, 2004.

Natural do município de Trairi-CE, na localidade do extinto povoado de Lagoa da Luz, Wender Montenegro nasceu em 16 de agosto de 1980. É professor de Ciências Humanas e tem poemas publicados em três antologias, resultantes de concursos literários: Idiossincrasias (São Paulo, 2004) Humano, humano demais (São Paulo, 2004) e X Prêmio Ideal Clube de Literatura – Prêmio Gerardo Mello Mourão (Fortaleza, 2007).

Entre esses poemas, um dos que considero de maior importância é Noturno. São cinco décimas em redondilhas maiores, repletas de rimas soantes, mas sem um esquema fixo entre as estrofes. Após uma descrição da noite com seus personagens e circunstâncias, Montenegro finaliza com a descrição do galo em sua ritualística:


Um galo inicia o rito

predecessor das auroras:

demarca as raias do tempo

(enterra as cinzas noturnas

com um cântico solene;

sagra o dia – Prometeu –

e aclama o sol – seu archote –

com forte aplauso de asas);

recolhe as lenhas do dia

para as chamas de outra noite.


Em WM, o galo não é apenas um tecelão da manhã, como o é em João Cabral de Melo Neto, nem o seu grito, “mero complemento de auroras”, como o quer Ferreira Gullar. O galo é, para ele, o demarcador dos limites do tempo, de suas raias. Mais que isso, é o próprio poeta, responsável por livrar os mortais da escuridão advinda das coisas ordinárias. Porque apenas os que estão com um pé na imortalidade podem trazer a luz necessária que afasta o cotidiano. O galo-poeta é o nosso indispensável Prometeu, que não é propriamente um humano, mas tampouco é um Olímpio, porque pertence, segundo Jean-Pierre Vernant, “a uma linhagem diferente. Tem uma natureza titanesca”. Nesse sentido, o poema é só uma pequena tocha nas mãos daquele que furta dos deuses a iluminação que a humanidade implora.

Mas o poeta, como uma ponte entre o divino e o humano, um sacerdote do verbo, também faz um trabalho oposto, o de devolver aos deuses, sedentos que estão do sacrifício da palavra, a chama da poesia que deu-lhes vida (porque os homens criaram os deuses, apesar da opinião geral em contrário). Assim, lemos em Deuses-varridos:


Qual prometeu às avessas

o poeta rouba o fogo

e o restitui aos deuses


E esse universo mítico reaparece em outros momentos como em uma outra estrofe de Noturno (A noite derrama em nós, / como o mítico Ciclope, / seu pálido olhar de lua / que faz tremer Poseidon), em Humano demais (Sísifos de eras modernas, / divisamos, consternados, / a queda sem-fim dos dias), em Do amor (Somente a paixão / guiava Ícaro: / asas de ouro / não derretem ao sol), A despeito de Sartre (ébrios Narcissos espelhando-se / em vômito), na primeira estrofe de Deuses-varridos (só a poesia – fio-de-lã-de-Ariadne – / pode resgatar-nos...), em Girassol faminto (E é sobre o leito de Gaia / que, quase morto, inda espero / o belo fulgor da aurora) e em Inscrição (Aqui jaz quem matei! / Aqueci suas asas de Ícaro / e destruí seu mais alto voo).

Não há como o mito deixar de ser matéria da poesia, porque a origem e a natureza dos dois se confundem. Como afirma Fernando Pessoa, “o mito é o nada que é tudo”. Ou, segundo seu heterônimo Bernardo Soares, “o tédio é a falta de uma mitologia”. Os mitos são as escoras de nossa realidade, a elaboração teórico-imaginária (mais que isso, psicológica e inconsciente) que sempre manteve o mundo em ordem e que, mesmo somente no campo simbólico, é a explicação mais plausível para a verdadeira criação humana. Wender Montenegro, faz bem em mergulhar nesse universo cultural dos mitos gregos em busca de uma fonte criadora particular.

Além disso, todo o livro é um grande desfile de referências que comprova o preparo de Wender Montenegro para uma trajetória de sucesso na poesia. Desde as dedicatórias, aos poemas motivados por versos de outros autores e às menções quase imperceptíveis de muitos outros, em tudo fica evidente o razoável volume de leitura desse jovem poeta, condição necessária para uma produção com alguma riqueza.

Porém, o melhor de tudo é que esse caderno apresenta uma poesia viva, capaz de chacoalhar o leitor, diferente dos estéreis textos dos que, enveredando por um caos de invencionices, não chegam sequer a revelar uma porção de alma capaz de abrandar a nossa fome de humanidade. O que resume esse ímpeto presente na obra de WM é o Da poesia:


A poesia

é – Laodiceia –

nauseada pelos homens

por ter hálito de fogo!


ARESTAS não será suportável para os que, entregues à monocromia do cotidiano ou às confusões dos poetas não leitores, deixaram a alma à deriva e amornaram como os crentes laodicenos do apocalipse. A poesia aqui tem labaredas na garganta, ou saídas da mão de Wender, o mais novo Prometeu entre os afogueados poetas cearenses.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIAS


AZEVEDO, Sânzio de. Cartas sobre o livro “arestas”

Disponível em: http://www.jornaldepoesia.jor.br/wendermontenegro.html#azevedo


CARVALHO, Francisco. Um poeta alça voo. In_MONTENEGRO, Wender. Arestas. São Paulo: All Print Editora, 2008.


GRÜNEWALD, José Lino. Ezra Pound: uma dialética de formas. In_POUND, Ezra. Os Cantos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.


MONTENEGRO, Wender. Arestas. São Paulo: All Print Editora, 2008.


VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.







* Texto originalmente publicado na revista eletrônica Verbo21, em 2011.

Para citar:
NASCIMENTO, Edelvito. Uma nova chama na poesia cearense. Verbo 21: Cultura e Literatura, 2011. Disponível em: <http://www.verbo21.com.br/v5/index.php?option=com_content&view=article&id=122:uma-nova-chama-na-poesia-cearense-vitor-nascimento-sa&catid=53:resenha-e-ensaios-marco-2011&Itemid=80> Acesso: 31dez2011.