Sobre os beijos da primeira namorada

 





Aqueles olhos noturnos

Luzindo de luz parada

Na imensa noite da ilha!

Era minha namorada

Primeiro nome de amada

Primeiro chamar de filha

Vinícius de Moraes



Aquele beijo era de café recém-tomado.

De café, aliás, toda sua casa.

E a boca, na noite da casa, nebuloso encontro:

algo residente entre ausência e o abismo.

 

Ah! Era minha namorada...

Sobre o muro divisando quintais,

um pássaro, os galhos de laranja-cravo

e sua boca aninhando um sorriso.

 

O sol caía, os livros se abriam

e o perfume dos lírios ali plantados

confidenciava sua fuga, passos de menina,

mais uma oferta da boca esfomeada.

 

sua mão esgueirando o portão em busca da tramela,

sua sombra sobre as ruínas do pequeno tanque,

escombros de água na boca, na escuridão.

 

Seu nome, já tanto pronunciado

não mais me permito dizê-lo.

Segredei a dor trêmula da tua mão.

 

Por muitas vezes,

ameaçou lançar-se ao poço,

como aliás ameaçava também sua tia.

Mas aquela não se atirava.

Nunca, jamais pularia.

 

Mais tarde,

por um amor menos menino,

aos outros de mais idade,

desses com capacidade,

para retirá-la, por fim, daquela ilha,

por este amor, envenenou-se,

mesmo sem ter prometido.

 

E seus passos no escuro,

sua mão em busca do portão

acariciando o muro,

seu beijo de café,

como de café, seu mundo,

e também a sua boca,

tudo lançou numa trouxa

e para sempre levou consigo.

 

Consigo acabou-se tudo!