Relógio de Parede




 

“relógio parado

o ouvido ouve

o tic-tac passado”

Paulo Leminski



Um tic-tac no ouvido

me visita do passado

de um relógio de parede

e seus ponteiros dourados.

 

Minha avó o retirava

e o limpava cuidadosa,

o relógio que assuntava

nossa poesia e prosa.

 

Ele já foi testemunha

até dos atos de fé.

Só não tomava conosco

religioso café.

 

Certa vez ele contou

todas as horas do dia,

que passavam lentamente

velando o corpo da tia.

 

E agora aquele relógio,

que encantou triste criança,

recompõe peça por peça

fragmentos de lembrança.