Redefinição




O passado não passa.


No aqui, no agora,

fustigando os cantos,

ronronando,

roçando pernas,

ele toca campainha,

toma do nosso vinho,

nos sacode

ao menor sinal de cochilo.


A despeito do que nos tentam

impor as normas morfossintáticas,

as leis etimológicas,

a semântica oficiosa,

as limitações da lógica,

o desespero,

o desejo...

como filho bom do paradoxo,

o passado é o não-passado.


Posto que fica.


E nos avizinha

toda vez

que um átimo

se atira das ribanceiras do presente e,

morrendo,

se eterniza nas finas malhas da memória.


E, quando nos enganamos,

ignorando sua perene respiração,

ele, o passado, nos desperta

com pânico, suor, lágrima

e com a sagaz e discreta alcunha de pesadelo.