Pai




Hoje chove.

Amanhã faz frio.

Depois de amanhã,

     a tua falta bate à porta.


E já não tenho certeza

     se viver nesta casa

     ao redor de tuas coisas

         será a fresta de um consolo

                ou a vista do abismo.


Hoje chove.

Amanhã é domingo.

E tua face se amarela

       no papel retrato.


Depois de amanhã,

semana que vem

ou dez anos depois,

       ainda ouvirei teus passos

             no corredor.


No papel retrato,

       tua face e teu sorriso 

              seguem amarelecidos.


Na minha retina, porém,

       congela-se o aperto de mão

              e o último sorriso.