O poema de que não falei

 




(Para Ivana Karoline)


tenho por ti um amor de ribanceira

um amor de atirar-se ladeira abaixo

por isso meu pouco tato para velas

para vinhos e sedas de trincheira


meu amor por ti é tão viciado

na arte de devorar as flores

que o primeiro buquê

chegou à tua mão repleto de talos


meu amor por ti é cinofóbico

porque os cães que ladram em meu peito

dilaceram meus rins em mil dentadas

e embriagam de cadências os teus peitos


já beira o absurdo esse amor de pedra e lavra

esse galopar de folhas ao redemoinho atiradas

essa constante presença e a finitude

de minha febre ostentada em candelabros


apenas raramente ele é um canto recolhido

um toque de anjos mal-intencionados

um sedimento sob a água de luzes

como um frade em sua alcova escondido


mas logo pulsa como estava antes

como frutas suicidas sobre árvores

como a massa encefálica de um Cérbero

como arbusto sufocado numa rodilha de serpente