Licinha
Escrevo-te para contar que sonhei contigo.
Como da última vez, tu me ofereceste café
e contaste-me como minha avó era boa
e como era grande tua saudade
do vozerio à toa...
no terreiro... naquele tempo...
Era um dia de sol no sonho que sonhei contigo.
À soleira de tua casa, tu me acenavas em despedida,
com o teu sorriso tímido, com teu olhar no nada,
o nada-uno, nada-tudo, o silêncio de luz e vida.
São bons, assim mesmo, teus olhos,
Licinha, senhora das mãos de barro,
senhora e mãe de todos os santos.
Com eles, tu enxergas muito além
e bem melhor que todos nós.
Se, por acaso, não sabes, informo-te
que o mundo dos homens (e suas cidades)
continua com sua sempre insignificância.
Se podes, continua aí com teus cães e galinhas.
Além de toda maldade, circula aqui a peste.
Desenhei um retrato teu para não esquecer
desse sonho bonito que sonhei contigo.
Espero que não te incomodes.
Lembranças a teu irmão Luiz e tua cunhada.
Diz-lhes que anseio breve reencontro.
Minha mãe manda-te abraços.
Por fim, peço tua bênção.
Saluba!