Canto de Concriz




I


O primeiro poeta me falou

que amar era um verbo incandescente

destruindo o que encontra pela frente

provocando na gente riso e dor;

que uma rima toante no seu bolso

se agitava e escapava pouco a pouco,

deslizando qual ponta de uma faca.

E um deus que lhe quer doido de pedra

faz no fundo do ouvido estranha fera

agitar no juízo uma matraca.


II


O segundo poeta era mais brando:

só sabia das sombras no terreiro,

da inocência, da fé, da vez primeira...

Mas falava de Deus de vez em quando.

Quando nós recriamos esta cena,

aprendemos que é só com um poema

que a lembrança de um homem ganha asa:

ele vira menino e se transporta

pelo tempo e encontra sua sorte,

visitando os escombros de uma casa.


III


Eu te amo e, na certa, tu não sabes:

me senti alvejado por Cupido.

Meu amor se criou com o estampido

da explosão da partícula sagrada,

lacerando a cortina do universo.

Quando vi tua boca com um verso,

e mais um, e mais outro, antologia,

me rendi a metáfora falada

por mil noites, catorze madrugadas,

e por mais, muito mais, que cem mil dias.


IV


No primeiro poema que disseste,

sobre loucos que vivem pela rua

a vagar, tremulante era a voz tua

e perdido, o olhar, quase celeste.

Hoje, louco já és ou um soldado

na trincheira, por Ares comandado.

Se és guerreiro da paz, guerreia em verso

e semeia granada de poesia.

De entender este ser virá o dia:

é ser uno, ser duo, controverso.


V


O trovão que cultivas na garganta,

como planta a subir pela parede,

é um Deus cochilando numa rede

com o choro feroz de uma criança.

Estampido de bomba numa pena

não atende a quem quer tua presença,

nem quem troca teu nome por querida.

E, depois de calada tantos anos,

vai embora pra o mar mediterrâneo

navegar nos cruzeiros desta vida.



VI


Hoje estás no Marrocos, em Paris?

Sei que aqui não estás, do nosso lado:

derradeira era voz que me chegava;

recitava em francês dum aprendiz.

E a saudade que vem no nosso peito

não podemos matar nem dar um jeito.

Vez em quando eu me lembro em alegria:

tanta gente tirava os pés do chão

quando tu e teu passo e tuas mãos

recitavam a gênese do dia!


VII


Tens a força e o tamanho de um ciclope,

a largura dos braços de Procusto.

Quando o verso de ti sai limpo e forte,

é temor para justo e para injusto.

Mas teu gesto é de um pássaro que canta,

de criança que brinca, corre e cansa.

Mas, se acaso te pões sério e calado,

entre as aves acaba a alegria.

A esperança é rever por mais um dia

tua sombra gigante no tablado.


VIII


Que dizer do tamanho dos teus olhos

– essas luas que orbitam no teu crânio –

parecidos com dois grandes gerânios

sobre mesa de bar ou de escritório?

Quando falas, estrelas suicidas

se arremessam do céu pra ouvir poesia

e o espaço com luz de trinta sóis

ouve os versos que saem dessa boca.

E nem mesmo um arcanjo calaria:

tu recitas no escuro com faróis.


IX


Certa vez, recitavas no café

da manhã, vespertino ou coisa assim...

e era ainda, me lembro, uma menina.

Mas agora tornaste uma mulher:

se recitas ainda sobre beijos

que recebes em sonhos, desconheço.

Mas agora que estás tão protegida

pela Santa do fogo, nome Bárbara,

eu te rogo que o fogo em rosa e pássaro

não se torne jamais desconhecido.


X


Teu olhar é de garça pela sala,

é pretérito céu de malmequeres

Delicada, qual flor despetalada,

uma rosa no vento de mistério.

O teu brado a romper mar e montanha,

pedregulhos e lírios amarelos,

é um brado de gato que ronrona

cada sílaba, cada som do verso.

Tua boca devora sons e luas,

olho fino com dentes de pantera.

XI


E Vitória era a tua companheira

na missão de pregar nossa loucura

e, na tua inocência, pedra pura

só podia acertar: vez derradeira.

Quis a culpa melhor compartilhada

e que fosse ralhar a madrugada.

Tens os olhos fechados e o sol arde

tuas pernas e braços e cabelos.

Tens a sede de quase mil camelos.

A infância se foi, agora é tarde.



XII


Na cabeça tu tinhas ouro puro

e nas mãos as guitarras invisíveis.

Eras louco pra nós, os insensíveis

cujo peito detém coração duro.

Tu fizeste uma barba a ferro quente:

floresceste o sorriso em meio a gente.

As lanternas que tinhas no juízo

se acendiam com cada verso em boca.

O medíocre é quem diz: cabeça oca.

Mas o sábio te manda ao paraíso.


XIII


Meu orgulho de ver tuas palavras

delirantes, sagazes, voadoras,

coração que tem luzes multicores,

animais esquisitos, sonhos vários,

só comparo a um homem que resolve

dedicar-se a plantar o que dissolve,

no seu ego, o refrão e o estribilho

da canção que na sua alma vai

semeando as estrofes como um pai

que alimenta de versos o seu filho