Bandeira
Não me ofereça bandeiras.
Sei quem sou.
Conheço meus calos
e raízes.
Tantas vezes atônito,
paralisei na encruzilhada…
tanto caminho diverso de mim
tomei e, desperto, retrocedi.
Mas não me ofereça bandeiras.
Os que me antecedem
escrevem, em meu corpo, um mapa:
rios, caminhos de profundidade.
Não queira me convencer
de que tua felicidade é minha
e de que tua vista, do alto,
compreende os espinhos
da madrugada.
Sei por onde correu meu sangue
antes mesmo que eu existisse.
E não preciso que me ensines
com que palavras discursar.
As dores que me precedem
dispensam a tua pedagogia.
Teus manuais não conseguem
traduzir a língua da minha poesia,
a língua de guerra dos meus ancestrais,
a língua dos cânticos do nosso espírito.
Não me puxe pela mão,
recolhe os teus panfletos
e não queira me indicar os caminhos.
Sei quem sou.
Continuarei a sê-lo.
Distantes, vêm meus passos
e seguirão.
Portanto,
não me ofereça bandeiras.