Antenor





Tuas alpercatas ainda estão

sob o tamborete da cozinha,

tuas alpercatas de couro cru

encardido do lodo de tua alma.

 

A cozinha é que já

não é a mesma.

 

Ah, Antenor,

precisas ver como está

diferente tua casa!

 

Do fogão a lenha,

que aconchegou teu esqueleto

de pedra

não deixaram pedra sobre pedra.

 

A pia ainda está lá,

e a mesma louça velha.

Mas a torneira pinga

a noite inteira.

 

Cada gota, um batalhão

de assombrações.

 

De lá é que o tempo

tem escorrido depressa.

E dá pena tanta água e

vida desperdiçadas.

 

Demoliram a dispensa

e com ela deram fim

no teu armário misterioso,

no espelhinho de parede,

na gaiola de teu juriti.

 

Antenor,

se tu estivesses vivo

para ver o que fizeram

de tua casa, de teus filhos,

de tua primeira solidão,

do teu retratinho...

 

Ah, Antenor,

se estivesses vivo,

quererias morrer

num dia qualquer de dezembro

para deglutir o teu desgosto

da forma como tu sempre foste:

 

frio e só.