A transparência na alma de Bruno Gaudêncio
Revista Verbo21, 2010*
O homem ainda teima em correr da morte. E faz isso de modo desesperado. Cada um luta com que a vida lhe proporciona como talento. Os primatas já faziam isso, instintivamente, procurando preservar a sua espécie, espalhando o máximo possível os seus genes na superfície da terra. Há hoje quem lute para que sua vida seja toda riqueza material e que essa riqueza perdure levando seu nome pelo tempo até não mais poder. Ser poeta é procurar também uma forma de imortalidade, um meio de fazer permanecer o nome na memória coletiva. Muitos poetas mais produzem, tanto mais perto sentem a morte farejar o seu pescoço.
É por isso que, geralmente, eles têm pressa: querem se ver impressos em livros que os imortalizem. Já na adolescência, exibe os seus versos desastrados como quem mostra um filho, ou uma montanha de diamantes. E, ainda jovens, basta ter nas mãos uma possibilidade de se publicar, eles se arriscam. Não é de hoje que temos prêmios, concurso para autores inéditos: a sociedade reconhece essa sede nos novos poetas. No geral, eles (os novos poetas) esquecem-se de um conselho muito valioso de Rilke, em sua terceira carta: “a paciência é tudo!”.
É esta, talvez, a razão de Bruno Gaudêncio (02-12-85) não querer perder tempo. Logo cedo tornou-se editor da revista eletrônica Blecaute, que idealizara ainda nos tempos de faculdade. Com ela, organiza uma reunião de nomes diversos e elabora aos poucos uma história dentro da literatura hodierna da Paraíba. Além disso, colabora como colunista da Rede de Notícias. Tudo indica que sua vida será mesmo construída em torno da escrita – não por acaso, tornou-se jornalista com formação na UEPB.
E como todo escritor por natureza (que sente o incômodo da poesia à sua porta toda manhã), obviamente, Gaudêncio anseia a materialização de seu trabalho. Penso nisso olhando para o seu livro O Ofício de Engordar as Sombras (João Pessoa, Sal da Terra Editora, 2009). Sua azáfama talvez o tenha motivado a deixar de lado a preocupação com um trabalho editorial mais cuidadoso, muito provavelmente, devido à escassez de meios financeiros para tal. Não que isso seja necessário para provar a autenticidade de um trabalho poético. Mas, havendo tempo e recurso, qual poeta abriria mão de uma produção bem acabada, visualmente atraente? Mas Bruno não quer ver o tempo passar, não carece de papel chamois fine dunas, nem de capa fosca com detalhes laminados. Não! Bruno carece é de ser visto, como todo poeta novo ou novo poeta.
Por isso, as eventuais falhas dessa obra deverão ser desculpadas. Não ignoradas, porque fechar os olhos aos erros é obstruir o caminho de crescimento do poeta. Há equívocos que vão além do já exposto, que perpassam mesmo a feitura poética de Bruno. Alguns já foram citados por Hildeberto Barbosa Filho na edição de abril do Correio das Artes, de João Pessoa. E o jovem poeta tão empenhado está nesta busca que saberá acatar as críticas do grande Hildeberto com a humildade necessária.
Mas o presente texto não pretende adentrar tão especificamente naquilo que falta ao livro. Até porque muito me aproximo de Gaudêncio, tanto em idade como em experiência, e muito afastado me encontro do gabarito de Hildeberto Barbosa Filho. Pretendo aqui, tão somente, evidenciar o que de melhor vi em O Ofício de Engordar as Sombras.
Conheci o poema Fobias antes que o livro chegasse à minha casa: foi lendo o blog Invenção da Poesia (invencaodapoesia.blogspot.com) que primeiro me impressionei com os versos desse paraibano. Nesses quatro quartetos, o poeta revela seus medos: “Sinto flores nas bocas / Sinto dores nas roupas / Sinto cores nas calmas / Sinto câimbras nas almas”. E está aí a primeira fobia humana: a fobia da morte, a primeira ideia que aqui lancei. E esse medo está aí, implícito nas referências de Gaudêncio, leitor de Cecília Meireles: “Aquilo que ontem cantava / já não canta. / Morreu de uma flor na boca: / não do espinho na garganta”.
Estamos todos sentindo esse gosto de pétalas na nossa língua. Porque a morte nos avizinha, nos arrodeia. E, de mãos dadas a ela, muitos outros pavores nos chegam e, por isso, Bruno continua: “Sinto espelhos nas folhas / Sinto dedos nas telhas / Sinto lobos nas trovas / Sinto rezas nas covas. // Sinto mortes nos ventres / Sinto sombras nas lágrimas / Sinto estrelas nas mentes / Sinto estranhos nas casas. // Sinto feras nas jantas / Sinto cantos nas fugas / Sinto chuvas nas mantas / Sinto sopros nas nucas”.
E a beleza desse poema vai além dessa temática irônica e pessimista: a combinação de rimas toantes e soantes, o ritmo leve e uma relevante preocupação com a métrica demonstram toda a carga da lírica de Gaudêncio. Não há como negar: trata-se de um poeta promissor.
Bruno tem a essência do artista da palavra e revela essa natureza em Poeta da Alma de Vidro: “O poeta com sua alma de vidro / e seus olhos de espelhos // respira // a película dos poros / dos seus desesperos”. Talvez esteja aí a síntese do que diferencia o artista de qualquer outra pessoa: essa capacidade de ser o espelho em que o homem se enxerga, a possibilidade de transmutar-se em vidro que, com seus micro-poros, filtra as cores da paisagem para revelar o que há ali de imprescindível. E o poeta está aí, com toda a sua transparência, com sua inegável habilidade de estar aqui dentro (na esfera da realidade tangível), estando, ao mesmo tempo, lá fora, em outra instância, outra esfera. E, como um vidro abafado, transpira aqui dentro o que percebe de lá de fora. Platão já dizia algo semelhante.
Mas sentir-se assim não é completamente alegria. Em Danações III, está descrito todo o sofrimento de carregar desde cedo a sina de ser poeta. Mas um sofrimento antitético: “entendo que não tive outra alegria. / Nem outro qualquer contentamento. / Senão do que cantando o que sofria”. É um sentimento comum a muitos poetas. Porque escrever é, de fato, “engordar sombras” ou, como descreve Manoel de Barros, é carregar água na peneira.
Poesia é sempre um risco. Publicar é arriscar-se no terreno perigoso da crítica. O contrário é arriscar-se ao esquecimento, à possibilidade de ser um poeta morto jamais lido. Poetar, portanto, é ter coragem de seguir por este ou aquele caminho. Requer muita coragem guardar sempre seus escritos e esperar que, postumamente, alguém levante sua memória ao conhecimento público. Mas muito mais audacioso é quem publica pela primeira vez para ver, ainda vivo, a repercussão de sua obra.
Por isso, o sentimento que fica dessa leitura é o de alegria. Alegria por trazer à baila mais um talentoso escritor, que não teme a exposição. Esse pequeno caderno é uma janela para a vida de Gaudêncio. Uma janela que ele abriu para que pudéssemos dar uma espiadela. Contemplemos, portanto, a paisagem do lado de dentro do poeta.