A propósito da liberdade
Esse queimar na garganta
e essa dor, que é como seta
cravada na boca do estômago,
são dores comuns ao poeta?
Onde está meu castelo de vidro
todo enfeitado em marfim
e a outra minha metade
que desgarrou-se de mim?
Nesse tempo de idiotas,
amantes da violência,
posso tocar minha lira
sem cravo na consciência?
Posso esquecer-me da fome,
da guerra, da crueldade,
de que, na funda gaiola,
aves e homens cantam, sem liberdade?
Meu verso tem de ser dito
como um soco na barriga,
como as chamas do inferno
queimando o não da justiça
ou como um arpão que iça
um demônio trajando terno,
toga, bata ou batina…
Que corte o papel do caderno
um verso tão afiado,
como a boca da faca fina
ao verde-louro bordado.