A inexistência e outros silêncios na literatura de Helena Ortiz





Fundação Casa de Jorge Amado, Com a palavra o Escritor, 2010*



Qual é o limite entre sua poesia e sua prosa? diálogos, por exemplo, foi publicado como poema e, depois, no livro contos. E muitas outras narrativas poderiam ser reeditadas em um caderno de poemas.

Mas que importa os limites? Quem nos obrigará à dissociação disso daquilo? Quem separará, à força, o contistapoeta do poetacontista (assim mesmo, tudo junto... nem mesmo um hífen, Helena, poderá apartar-te de ti mesma)?

Eu sinto dificuldades em compreender a direção de alguns contos de Helena. Mas acho que isso é mais sinal de inteligência da escritora que de inabilidade do leitor. Daniel Santos tem razão: o conto delicada, assim como a maioria dos outros, nos “eleva a um patamar de inteligência e sensibilidade” único.

Nos contos de O silêncio das xícaras, a narrativa se desenrola na linguagem interna dos personagens. Digo isso porque creio que o pensamento se dá essencialmente pela linguagem: nossos pensamentos são a execução de nosso próprio idioma dentro de nós mesmos. A maior parte da narrativa, nesse livro de contos, se dá pelo encadeamento de lembranças e falas interiores, por assim dizer, dos personagens. 

Mas a voz do narrador (hora distante da cena, hora bem dentro dela, no seu mais profundo) também aparece: amalgama sutilmente o amontoado de pensamentos difusos. Ela surge tão delicada, tão silenciosa, que, às vezes, parece sumir entre os monólogos, como em onde está o casado de maria luiza?. O texto é repleto de vozes, recordações fragmentadas, monólogos entrecortados e expressos por sabe-lá-quem...! De quem é a voz que questiona? Quem responde? De quem é o filho que chora, de Maria Luiza ou de sua mãe? Há alguma coisa dita pela tia, cuja a existência só é exposta ao final do conto? 

São perguntas para às quais, sintaticamente, não há respostas. Só a criatividade leitora revelará o que se passa nesse quarto de hospital, chegada e partida de enfermeiras. Está aí o que nos coloca tão fortemente dentro da narrativa de Helena: somos obrigados à cocriação, convidados à cena no espetáculo da escrita.

A primeira coisa que nos cabe, principalmente nas páginas iniciais, é a pontuação. Em alguns casos, ela é estranha, foge às convenções: o segundo parágrafo de ondas começa com dois pontos e, em sapato salmão, uma barra transversal é utilizada em um local de modo a possibilitar diferentes leituras a uma só frase. O uso de pontos e de vírgulas é escasso em uns textos (como em o silêncio das xícaras, conto que nomeia o livro) e inexistente noutros (como em diálogos). 

Em salvar como, a escritora se explica: 

“eu sim estou doente carregar as pernas sustentar um livro entre as mãos preparar o café construir a sentença em seu ponto – ancoradouro onde o vento me levanta – mas para chegar até ele são braçadas sôfregas e não estou para excessos por isso sem vírgulas que quase não respiro” (p. 32, do conto salvar como)

Nós também não respiramos. E, se respirássemos, nos perderíamos mais ainda. A tarefa de pontuar mentalmente o texto nos obriga a uma outra: decidir quais são os termos de determinada oração e quais são os da oração seguinte. Aí é que a polissemia se instala de forma tão profunda que, geralmente, não encontramos saída definitiva, senão a dúvida. Os contos são tão lacunares que se impõem muito mais pela ausência que pelo escrito.

Mas as faltas, as ausências, dentro da narrativa não são falhas desordenadas. Antes, são espaços para outros olhares. São como janelas na parede do texto. Uma janela é uma ilha pelo avesso, porção de paisagem rodeada de tijolos por todos os lados. Cada bloco de escrita em um conto rodeia  inexistências, dúvidas, questionamentos essenciais à construção do sentido. Por isso, somos sempre coautores. 

Mas, preparem-se, em outros pontos as coisas ficam ainda mais intrincadas. Em pernas puras duras penas, o fluxo de pensamento é tão intenso, as superposições são tão acentuadas, que não há nada que nos prepare o fôlego. Aqui é que mais nitidamente compreendemos o que diz Igor Fagundes no ensaio de prefácio. Comparando os contos de Helena Ortiz há produções de curta-metragem ou a clipes, ele salienta que

nos planos de curta duração e no encavalamento das diversas tomadas dentro de um único quadro, a escrita de Helena faz com que a acuidade visual de suas lentes se contamine vigorosamente pela trilha musical imposta pela própria melopéia do verbo, impulsionando o plástico a converter num pulsante desdobramento de formas no tempo, em que o visível, o visto, o ocular e fotografado não precisam durar: a indurabilidade torna-se o mais relevante. (p. 23, prefácio de Igor Fagundes)

Para o ensaísta, a impossibilidade de impormos pontuação a alguns trechos (ou de separar uma cena da outra, uma tomada da outra, como se essas estivessem encavaladas) nos leva à sensação de que não há começo, nem fim ou recomeço para cada trecho. Tudo é continuidade e o que importa é o presente:

ela está estressada a babá estressou a criança cresce no carrinho cinco anos a pressa a natação dona cráudia a nenê está crescida não me vem com isso daqui a pouco revisão de sentença advogado juiz bancos juros investimentos crianças crescendo pernas crescendo as pernas puras crescendo moles (p. 36, do conto pernas puras duras penas)

Em determinados contos, como diálogos ou filme b, a voz do narrador desaparece completamente. Mas, de certo modo, ela ainda está lá, implícita. 

E também outras coisas faltarão aos contos. Porque a ausência também se espalha na semântica: em história de pescadora, o que mais Vanessa é capaz de fazer é “o estrondoso silêncio do mar”; em diagnóstico, o alerta, “aí vem o escuro”;  a morte e outras formas de despedida estão em diversos lugares (em para sempre amém, porcos de espírito reino dos réus, salvar como, também em questão de gosto, só para citar alguns); em como as duas mocinhas de Botafogo precisamos encarar a completa tragédia humana, a irreversível degradação, a ausência de espírito; já em sem que soubéssemos, nos colocamos “sem pensamentos” e descobrimos que “a vida é grande, a alma é vasta”, porém “o trem não apita mais quando cruza a ponte”, e talvez esse seja um dos maiores silêncios.


Até mesmo João Cabral de Melo Neto, para quem a refinação formal era prioridade, chegou a afirmar um dia que 'a obrigação do poeta era criar um poema que fosse capaz de provocar emoção no leitor'. Está certo que ele, além disso, afirmou que “existe uma emoção intelectual também”. Mas em matéria de emoção, o primeiro livro de Helena Hortiz, publicado em 2005, não fica devendo em nada. 

Dedicado à sua filha, falecida prematuramente havia poucos anos, Pedaço de Mim, livro de estreia, com trinta e sete poemas em português e espanhol, é quase todo voltado para a temática da perda, da inexistência, da solidão. Mas não se encerra no sofrimento pessoal da autora. Helena consegue transfigurar essa dor, que é sua, em uma dor coletiva. Cedo ou tarde, estamos todos lidando com perdas, grandes e pequenas. 

E é tão gigantesca a ausência na alma da poeta, que ouvimos sempre um eco ressoando no vazio. Porque o eu-lírico não se encontra em seu próprio espaço. Está perdido sempre no onde, no querer estar em algum ponto, que já não existe. Pedaço de mim diz dos que partiram para o desconhecido – para onde foste, minha pequena? (pergunta vazia, Pedaço de Mim, p. 24) e dos que ficaram em lugar algum. Enquanto quem vai “desvenda o mistério// aqui ficaram os que não veem/ não percebem/ não ouvem/ não respondem”, afirma Helena no poema os que não (Pedaço de mim, p. 14). 

Tudo é silêncio para quem questiona a pior das perdas, tudo é ausência: “não ouço mais teus gritos/ não corro atrás de ti/ não te abraço/ não gozo teu riso/ não me espanto// trago em mim esse grito/ que não rompe/ esse tédio de sala de espera/ quieta”. (esperando a hora, Pedaço de Mim, p. 10)


* Texto apresentado oralmente no evento Com a Palavra o Escritor, na Fundação Casa de Jorge Amado, Salvador, em 2010.

Para citar: NASCIMENTO, Edelvito. A inexistência e outros silêncios na literatura de Helena Ortiz. Com a palavra o escritor. Fundação Casa de Jorge Amado. Salvador: 2010.