O embate primordial: criador e criatura
Prefácio do livro Tourada Imaginária, 2018*
Foi com muita alegria que recebi o convite de prefaciar o livro de meu amigo e conterrâneo Roberth Novaes. Mas a alegria inicial de me debruçar sobre a escrita desse jovem toureiro das palavras logo deu lugar a uma série de preocupações que, de algum modo, provocaram uma saudável reflexão sobre o próprio fazer crítico e teórico, o que acaba por renovar um necessário sentido de espanto que deve estar presente em leituras de poesia.
Uma dessas preocupações é própria de quem sempre põe em dúvida sua capacidade de discorrer de modo minimamente racional acerca de uma experiência que se aproxima do transcendente, do espiritual, da iluminação, da epifania. É necessário sempre alimentar essa desconfiança de que, talvez, não sejamos os mais indicados para apresentar um parecer acerca do trabalho artístico, principalmente em se tratando da arte poética. Nesses tempos de excesso de opiniões e de certezas, precisamos alimentar a dúvida e o silêncio.
A experiência poética, como nos orienta Octavio Paz, guarda alguma semelhança com a experiência religiosa, no sentido de que ambas nos direcionam a uma espécie de revelação. No caso da poesia, segundo ele, há a ausência da autoridade divina, porque a imagem se sustenta de modo autônomo, sem a necessidade da “instância de um poder sobrenatural”. Porém, assim, como na religião, o contato com o verso não é uma experiência que recorra à demonstração racional para se validar. Assim, escrever racionalmente sobre poesia, tentando apresentar ao leitor pistas mais ou menos estruturadas que o preparem à leitura de uma obra, é uma tarefa não só arriscada, mas sacrílega.
Essa reflexão nos obriga a reconhecer que prefaciar uma obra não é analisá-la pura e simplesmente, como um anatomista, de bisturi em punho, diante do cadáver. O livro que ora folheamos é muito vivo para se prestar à dissecação. Como uma manifestação da modernidade poética, com todos os paradoxos que lhe são inerentes, entendemos a literatura de Roberth Novaes como uma busca por uma linguagem de retorno à origem, a um sentido primeiro ou, nas palavras de nosso mestre Roberval Pereyr, de uma unidade primordial. E, nesse sentido, é melhor apreendida (porque nem sempre a poesia pode ou deve ser ‘compreendida’) se observarmos, nesses versos, a presença de “elementos semânticos e estruturais do mito, do sonho e da magia”.
Como toda estrutura mítica, o poema de abertura anuncia o nascimento, a gênese, o fiat lux, da poética e do próprio eu lírico, por uma referência ao anjo torto de “Poema de sete faces”, de Drummond. O poeta de Itabira, aliás, já aparece antes com os versos de “O lutador” na epígrafe do primeiro capítulo, cujo título é “Toureiro das palavras”. A partir do caos, do caldo primordial em que todas as forças se digladiam, emerge – do sono interrompido pelo toque do anjo – o deus que arquiteta o universo poético da Tourada imaginária. Ele desperta para a dança criadora, para o “balé descompassado”, para a luta com os benditos (ou sagrados) touros, irados com as bandarilhas do exercício poético. Esses touros com que o poeta lida são as palavras ou, melhor dizendo, “a palavra”, o verbo, o princípio. E boa parte da escrita de Novaes pode ser assim compreendida: uma luta constante com o verbo, como força primeva, como potência.
Sua espada (ou sua pena) penetra “o dorso da palavra”. Mas a aventura do toureiro não fará sentido sem os eventuais riscos e sem a consciência de que lutar com palavras é luta vã. Assim, “sem medo do destino”, o eu lírico se sujeita também a ser ferido pelo verbo numa constante dialética do fazer poético, fazendo-se poeta. Nada mais justo que, no seu livro de estreia, o construtor do uni-verso, desenhe-se a si mesmo, como um deus que, fazendo a luz, ilumine sua própria face.
O próprio touro é um valioso símbolo sagrado, estando relacionado, muitas vezes, à força, à virilidade, à violência ou, paradoxalmente, em outras culturas, à bondade, à paz, à justiça. Chevalier e Gheerbrant aponta para a existência do touro enquanto elemento mítico de diversos povos desde a China, passando pela Grécia, até o Norte da África. Esses símbolos – que remetem a ritos diversos – estão muitas vezes relacionados à fertilidade, à criação ou à renovação.
A tourada, prática originária da Península Ibérica e comum em alguns países latino-americanos, muito mais que mero esporte, deve ser vista como a perpetuação de ritos antigos, construídos em torno de lendas, mitos de origem, práticas religiosas, deuses e heróis. Ao escolhê-la como símbolo de sua própria escrita, Roberth assume a sua (a nossa) herança cultural ibérica para anunciar uma espécie de resgate das forças primordiais e, em certo sentido, também de uma ancestralidade determinada pela língua, mas não só por ela.
Essa ancestralidade passará ao nível local e espiritual em três poemas: “Ofício”, “Mãos” e “Partida”. Um olhar panorâmico e simultâneo sobre os três nos leva à percepção de uma metamorfose, na qual o toureiro ibérico se converterá no cavaleiro que doma a “explosão de rebanho, / gado solto na caatinga”. É ele quem ferra o lombo do boi, assim como “o poeta grava símbolos / na face crespa do papel” ou – “com seu próprio sangue”, sangue de toureiro golpeado ou de vaqueiro ferido pelos quiabentos – tinge “as letras de um livro místico”.
Nestes poemas, o cavaleiro, ou boiadeiro, é a entidade a quem se dirigem as preces sincréticas dum rosário de palavras, remetendo-nos aos mitos de diversas grutas – locais de peregrinação de um catolicismo sertanejo – descobertas, como rezam tais mitos, acidentalmente por cavaleiros, boiadeiros ou vaqueiros, personagens de histórias místicas de perseguições a touros mágicos ou sagrados e libertos da morte por milagres atribuídos a diversos santos. Essas e outras histórias são descritas por Machado e Aguiar, nos seus estudos sobre os fenômenos religiosos do sertão baiano, cujos ritos trazem em papel de destaque a entidade espiritual chamada de Boiadeiro e o próprio boi como ser milagroso, mágico ou encantado.
Assim como envereda pela linguagem mitológica, religiosa ou mágica, o eu lírico também se encanta pelas imagens oníricas. Fascinado, “tocado pelo espectro de luz”, ele está, assim como Dante, entre o êxtase celestial e o tormento das profundezas. E declara: “o sonho me aflige”. Está “no galope celeste do corcel / que cavalga faceiro os pensamentos”. E nesse universo dos sonhos, presente mais nitidamente no segundo e no terceiro capítulos – intitulados, respectivamente, “Uma flor de azulejo” e “Brado por liberdade” –, todos os paradoxos são possíveis. É o espaço do absurdo, “como a flor que nasce no / assoalho estéril da cidade” ou como o terror das horas que “arranca raízes / no assoalho dos sonhos”.
O universo onírico pode adentrar a poesia, rompendo a lógica ocidental ou, nas palavras de Pereyr, contrariando “o discurso do logos”, porque o tempo do sonho é, assim como o tempo do poema, um instante de que se consagra, usando aqui mais uma vez dos conceitos de Octavio Paz. E esse tempo poético, ou esse instante, é consagrado porque “o poema dá de beber a água de um presente perpétuo que é, também, o mais remoto passado e o futuro mais imediato”. E o livro que aqui se apresenta consegue, a seu modo, a façanha de reunir e consagrar esses três tempos, numa espécie de ciclo, como se verá.
É ainda no terceiro capítulo que Roberth dá espaço também a uma poesia com viés mais social sem, contudo, permitir que sua militância diminua o cuidado com o verso. Passando por uma menção ao flagelo da seca do sertão, que põe “todos expostos à desídia do destino”, e por uma sutil crítica ao capital (em “Exercício sistemático”), ele chega ao poema que dá título ao capítulo, com uma reflexão profunda sobre a lógica escravocrata “combatida por Alves por Palmares” e alerta para a presença ainda constante de práticas e discursos construídos sobre o arcabouço resistente da escravidão que persiste em nossa sociedade, como um “horizonte infinito desdobrado”.
“Concerto a galope”, quarto capítulo do livro, inicia-se com belíssimas homenagens a grandes nomes da música popular brasileira que, sem sombra de dúvidas, influenciaram a percepção artística do autor: Tom Jobim, João Gilberto, Dorival Caymmi e Luiz Gonzaga. E, no poema que dá título ao capítulo, Roberth apresenta um diálogo entre o clássico e o popular, com um belo soneto hendecassílabo construído com versos no ritmo de galope à beira mar, muito utilizado no cordel.
Destaque também para as homenagens presentes no capítulo “Raízes”. Primeiro, à cidade de origem do poeta: Maracás, cuja praça é enfeitada pelo “amarelo tapete refletido” das flores de seus jardins. Depois, ao Concriz, grupo de performances poéticas do qual o autor faz parte há alguns anos e que tem apresentado recitais de vários poetas em projetos como Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, e outros eventos como a Bienal do Livro de Salvador. Embora o Roberth já demonstrasse grande interesse e talento para a poesia antes de seu ingresso no Concriz, é inegável a influência que sua participação no grupo exerce sobre sua escrita, como se evidencia na sua escolha por um verso mais performático.
No último capítulo, cujo título é “Identidade”, há três poemas de grande fôlego nos quais o poeta demonstra uma maturidade estética maior, uma riqueza de símbolos, uma intensidade no ritmo e um jogo que se assemelha ao texto dramático. No primeiro, “16 anos”, há uma reflexão sobre a questão da idade, construída com um misto de niilismo e ironia. No segundo, “Liberdade assistida”, o que chama a atenção é a construção imagética em torno do cenário sertanejo. No último, “Identidade dissímil”, a temática se volta para a própria construção da identidade do autor, a partir de uma ancestralidade e de uma herança cultura multifacetada, apresentando também questões caras à própria noção de ser brasileiro.
Outra questão importante nesta última parte é a retomada, mesmo fragmentada ou diluída em vários pontos dos poemas, da figura do vaqueiro, do cavaleiro, do boiadeiro. Muitas vezes, essas figuras aparecem implícitas, mas a retomada da temática, construindo o ciclo de que falamos acima, já é anunciada na própria epígrafe do capítulo, em que há os seguintes versos de Damário da Cruz: “Olé / quando na arena / um touro me matar / não me socorram, / pois ninguém socorre / o touro quando o mato”. Aqui, o símbolo da morte remete, talvez, ao fim da própria obra, à morte de um eu poético que não se repetirá (posto que, num futuro livro, o poeta será um outro ser). Assim, a morte é evocada para amalgamar touro e toureiro, criador e criatura, o poeta e a sua palavra, num mesmo fim inevitável.
O que observamos, contudo, é que a luta entre esses dois polos (aqui representados na tourada) se encaminha – muito mais profundamente que para as simples noções de vencedor e vencido – para uma fusão, na qual touro e toureiro se confundem numa mesma figura. O que nos remete à personagem mitológica do Minotauro. Embora não seja diretamente mencionado na obra, o Minotauro está implícito nessa união de polos opostos da tourada. Pensando nas muitas leituras que se pode fazer deste mito, como observamos em Balandier, pensamos inicialmente numa aproximação do poeta à figura de Teseu. Mas, talvez, o próprio minotauro seja o símbolo mais apropriado para representar o eu lírico, visto que, numa dialética entre criador e criatura (como o verbo que se fez carne e vice-versa), o poeta-toureiro confunde-se com a sua própria poesia-tourada. Nesta condição, o seu labor é também o seu labirinto. E talvez seja esse o seu maior dos encontros: a consciência de que se está perdido.
Assim, o poeta se dá por vencido, no sentido de que reconhece a potência superior da palavra. Mas, por assim o fazer, dialeticamente, reconstitui a sua própria força criadora. De modo que não é o discurso de um vencido, mas o de um vencedor, o que encontramos nos versos de El toro indultado: “com muitas das palavras que toureei / A peleja foi em vão, lide perdida. / Indulto concedido pela força / Que me vence nesta dura partida”.
* Texto de prefácio do livro Tourada Imaginária, de Roberth Novaes.
Para citar: NASCIMENTO, Edelvito. O embate primordial: criador e criatura. In: NOVAES, Roberth. Tourada Imaginária. Salvador: Kawo-Kabiyesile, 2018. [prefácio do livro]